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Brasil

Uma sociedade familiar ao medo

Com o tempo, e a situação se estendendo por semanas a meses, a população que acordava chocada com as primeiras notícias do dia relatando o impacto da pandemia na Europa, passou a ser a mesma população que, por muitas vezes, optava em aglomerar, mesmo com as centenas de mortes diárias, chegando à casa dos mil.

Mellanie Fontes-Dutra

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Para muitos, a sensação de que estamos, há muito mais tempo do que parece, vivendo esta pandemia é tão parte de sua realidade quanto a própria pandemia.

No entanto, somente ontem, dia 25 de fevereiro, completou-se 1 ano do primeiro caso oficial brasileiro de COVID-19, confirmado no Hospital Israelita Albert Einsten. Acreditávamos que, um ano após o nosso primeiro caso oficial, de uma doença que afetara meses antes outros países e continentes, estaríamos em uma situação diferente do medo que a primeira onda nos incutia, naquele momento.


Medo é uma palavra de destaque aqui. O início nos assustou, mas achávamos que logo iria passar. Com o tempo, e a situação se estendendo por semanas a meses, a população que acordava chocada com as primeiras notícias do dia relatando o impacto da pandemia na Europa, passou a ser a mesma população que, por muitas vezes, optava em aglomerar, mesmo com as centenas de mortes diárias, chegando à casa dos mil. O que mudou na percepção do brasileiro frente a pandemia?

Resignação, negligência ou fuga da nossa própria realidade? A situação da pandemia da COVID-19 no Brasil agravou drasticamente, e ainda assim, não parece ter se traduzido em medo das consequências desse cenário.

O medo é um fenômeno complexo presente e estudado em muitas espécies. Pesquisadores vem aumentando seu entendimento quanto ao medo, sobretudo da sua relevância nas sociedades para além da sobrevivência. Uma das formas da aquisição do medo é a partir da experiência aversiva direta vivida pelo organismo, mas não é a única.

Explorar experiências aversivas de outros indivíduos por meio da aprendizagem do medo social é menos arriscado, e tem muito valor para uma sociedade. Tu podes, por exemplo, temer as consequências da pandemia porque viveu diretamente este medo ao experienciar sintomas da doença, porque viu alguém próximo passando por isso ou porque as imagens e relatos noticiados são impactantes a certo ponto que é possível pressupor o quanto isso está mais próximo do que gostaríamos a cada um de nós.

No início, esse medo nos deixava alertas e a sensação de ter uma “validade”, que acabaria em poucas semanas, motivou-nos a agir de acordo com ele. No entanto, com a falta de políticas baseadas em evidências, coordenação unificada nacional para o enfrentamento da pandemia entre um leque de problemas e conflitos vividos aqui no país, o cenário estendeu-se, e as pessoas passaram a incorporar fenômenos anteriormente inaceitáveis em suas rotinas.

O medo transformou-se em algo tão familiar, como se estivéssemos ouvindo aquela sirene tocar todo dia, no mesmo horário, quase não a notamos. No entanto, dentro de nós, essa sensação leva a alterações em rotas metabólicas e modifica o funcionamento de regiões do sistema nervoso, principalmente, trazendo consigo muitas consequências à nossa saúde e comportamento: ansiedade, depressão e transtornos de humor, por exemplo. Em uma passagem do livro A Peste de Albert Camus, é mencionado que “quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste”.

Precisamos trazer a sociedade para essa discussão: a pandemia requer ações coordenadas da sociedade para a sociedade lidar e sair da situação de pandemia. Ao passo que a adaptação a esse novo cenário é um fator importante para lidar com ele, que pode permanecer ainda por mais tempo, não podemos jamais nos esquecer que as perdas que o cenário traz não podem ser aceitas ou toleradas. Estamos falando de vidas.

De pessoas que pertenciam a essa mesma sociedade, a qual não pode permitir-se ao direito de resignar-se frente a isso. Afinal, “Se há outro mundo possível, esse outro mundo está na barriga deste, e temos que ajudá-lo a nascer” – Eduardo Galeano.

Aproveitando o ensejo….
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Sou biomédica, mestra e doutora em neurociências pela UFRGS, realizando pós-doutorado em Bioquímica pela mesma instituição. Pesquiso sobre neurociência e desenvolvimento, formação de regiões corticais de processamento sensorial e circuitaria inibitória. Também sou divulgadora científica pela União Pró-Vacina, Equipe Halo, Grupo Infovid e Rede Análise COVID-19, da qual sou fundadora e coordenadora. Meus principais interesses na divulgação científica estão em torno das vacinas e seu desenvolvimento, bem como variantes e as relações do sistema imunológico com o SARS-CoV-2 (vírus da COVID-19). Fui uma das 5 principais vozes sobre a pandemia no twitter em 2020 e seguirei me palestrando em 2021, aproximando as pessoas da ciência!

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