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Europa

Entenda a tentativa de golpe na Armênia

Apoiadores do Primeiro-Ministro Nikol Pashinyan e oposição foram às ruas após Exército pedir saída do governo

Ady Ferrer

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O Exército lançou uma nota assinada por todo o alto-escalão das Forças Armadas pedindo a renúncia do Primeiro-Ministro. Nikol Pashinyan vem enfrentando críticas pela condução do conflito na fronteira do Azerbaijão, na região de Nagorno-Karabakh. O conflito emergiu em setembro de 2020 e rapidamente se tornou o pior conflito na região desde a guerra étnica dos anos 1990.

Em novembro, um acordo de paz assinado pelos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e Azerbaijão, Ilham Aliyev, e o Primeiro-Ministro da Armênia encerrou o conflito. Com o acordo, o Azerbaijão fica com a área de Nagorno-Karabakh, tomada pelos armênios durante o conflito.

O acordo foi considerado uma derrota para a Armênia e gerou protestos. Manifestantes invadiram o parlamento, espancaram o presidente da câmara e vandalizaram o gabinete do Primeiro-Ministro, na capital do país, Yerevan.

“É um acordo extremamente doloroso para mim e para o meu povo” – disse o Primeiro-Ministro

Manifestantes invadem parlamento da Armênia
Foto: Reuters

Os manifestantes começaram a acusar o governo de Pashinyan de traição. No entanto, o conflito, que se estendeu por 6 semanas, gerou muitas perdas para ambos os países.

A Armênia perdeu uma parte do seu território quando as forças do Azerbaijão invadiram a cidade de Shusha. Já o Azerbaijão admitiu ter derrubado por engano um helicóptero russo que voava sobre a Armênia, matando 2 e deixando 1 ferido.

As autoridades de Nagorno-Karabakh confirmaram a morte de 1200 soldados. O Azerbaijão confirmou a morte de mais de 80 civis. Pelo menos 6500 pessoas morreram nos conflitos – em torno de 150 civis.

Foi a partir desse tratado que Pashinyan começou a receber pedidos de renúncia.

Armênia x Azerbaijão

Armênia e Azerbaijão fazem parte da região conhecida como Cáucaso do Sul, região que liga a Rússia ao norte do Oriente Médio. É uma região conhecida pela riqueza de petróleo pela pluralidade de etnias. As duas etnias que se destacam aqui são os armênios, de maioria cristã, e os azeris, majoritariamente islâmicos.

As tensões entre os dois países datam do início da Primeira Guerra Mundial, com a queda do Império Otamano. Milhares de armênios foram mortos e outros expulsos da região da Turquia, o que a Armênia considera genocídio e, portanto, seu dever proteger toda a etnia armênia.

Os dois países, junto com a Geórgia (que semana passada prendeu o opositor anti-Rússia e gerou a renúncia do Primeiro-Ministro), fizeram parte do Império Russo, que se dissolveu com a revolução de 1917. Os 3 se tornaram independentes em 1918.

Sem o império para controlar as negociações, tanto Armênia quanto Azerbaijão reivindicaram a região de Nagorno-Karabakh. Entre 1918 e 1922, os azeris e os armênios passaram a ocupar a área – os azeris no território plano, e os armênios na região montanhosa.

Com o surgimento da União Soviética, os dois países foram anexados e se tornaram repúblicas soviéticas. Foi durante esse período que os territórios foram demarcados por Joseph Stalin – e Karabahk se tornou parte do Azerbaijão. Logo depois, Karabahk passou a ser uma região autônoma, mas ainda dentro do Azerbaijão e povoado por armênios.

O fim da União Soviética reacendeu os conflitos. Azerbaijão e Armênia se tornaram independentes – e os armênios de Karabahk encontraram uma oportunidade para independência. A ação foi apoiada pela Armênia e rejeitada pelo Azerbaijão.

Um plebiscito foi feito em 1991 e a maioria voltou a favor da criação da República de Nagorno-Karabakh, mais tarde chamada de República de Artsakh. No entanto, os azeris se abstiveram do voto.

Em 1994, os dois países assinaram uma trégua, mediada pela Rússia, mas nunca assinaram um acordo de paz definitivo. Com a pausa no conflito, cerca de 600 mil azerbaijanos saíram das regiões capturadas pelos armênios. Estima-se que mais de 30 mil pessoas tenham morrido.

2020

Mapa da fronteira entre Azerbaijão e Armênia

A região de Nagorno-Karabakh é internacionalmente reconhecida como parte do Azerbaijão, mas é composta por armênios desde o fim da guerra, em 1994.

Os conflitos na região são comuns. No entanto, o de 2020 foi diferente: o Azerbaijão recebeu apoio da Turquia, e a Armênia, como era de se esperar, foi apoiada pela Rússia. Isso elevou o grau do conflito. Armamentos pesados e drones foram utilizados também em zonas civis.

Cidades longe da fronteira entre os dois países também foram atacadas por armas de longa distância. O Azerbaijão acusou a Armênia de bombardear sua segunda maior cidade, Ganja, e mirar no fornecimento de energia da cidade.

Em outubro, dois acordos de paz foram assinados mediados pela Rússia e pela França. Os dois foram violados horas depois. Foi somente em novembro que o conflito cessou – permitindo que pelo menos 50 mil azerbaijanos voltem a ocupar a região e outras 6 que foram capturadas pelas forças armênias em 1994.

Rússia e Turquia

A Rússia tem laços fortes com Azerbaijão e Armênia, vendendo armas para os dois lados. A Armênia é lar de uma base russa. O acordo entre Armênia e Rússia prevê apoio caso os territórios armênios sejam atacados. No entanto, não cita Nagorno-Karabakh e outras regiões do Azerbaijão que foram tomadas pelas forças armênias.

Tanto a Rússia quanto a Turquia já coordenaram acordos de paz entre Azerbaijão e Armênia. No entanto, em 2020 a posição de ambas, principalmente turca, foi diferente, pois a relação entre os países se tornou mais complicada com conflitos recentes.

Os turcos e azeris são etnias que falam idiomas parecidos, são países muçulmanos (mesmo que o Azerbaijão seja de maioria Xiita e a Turquia, Sunita) e são aliados históricos.

Por mais que a Turquia compre mísseis aéreos da Rússia, os dois países lutam em polos diferentes na Síria e na Líbia. Após um ataque aéreo russo que matou soldados turcos no início de 2020, na Síria, a Turquia se apresentou como oposição mais forte à Rússia: enviou mais armas e soldados para a Líbia e apoiou o Azerbaijão em exercícios militares.

A participação da Turquia nos conflitos de 2020 ainda não é clara. A Armênia acusa a Turquia de se envolver diretamente no conflito e diz que uma aeronave de combate turca derrubou um avião armênio. A Turquia negou as acusações até que satélites provaram a presença de aviões do país no espaço aéreo da Armênia. O país disse que os vôos não tinham a intenção de combate.

Após o acordo de paz assinado, a Rússia enviou 1960 homens em uma missão de paz para Karabahk e Lachin. A missão deve durar, inicialmente, 5 anos, com possibilidade de renovação.

Em 11 de janeiro desse ano, os líderes da Armênia, Azerbaijão e Rússia se reuniram em Moscou pela primeira vez desde os conflitos de 2020.

Pashinyan vai às ruas

Depois de acusar o golpe, Nikol Pashinyan chamou seus apoiadores para as ruas. Em determinado momento, ele próprio participou da manifestação. Autoridades estimam que cerca de 20 mil pessoas estiveram presente:

No final da caminhada, Pashinyan pediu para o Presidente Armen Sargsyan assinar o ofício de demissão do chefe das Forças Armadas do país, Onik Gasparyan, ou que o próprio apresente sua carta de renúncia ao cargo. O papel do presidente na Armênia é majoritariamente simbólico. Sargsyan ainda não assinou o pedido enviado por Pashinyan:

“Não é necessário envolver o presidente em processos políticos ou tentar exercer pressão. O Presidente não está do lado de ninguém” – disse

O Primeiro-Ministro disse estar aberto a negociações com a oposição, mas que irá prender qualquer opositor que “for além de notas políticas”.

Militantes da oposição também foram às ruas e bloquearam a Avenida Baghramyan, onde fica o Parlamento da Armênia. A polícia acredita que 10 mil pessoas estiveram na avenida.

Os dois lados chegaram a se chocar, mas a briga foi brevemente apaziguada pelos manifestantes.

*com informações de The New York Times, BBC, AA, Politize e MSN

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Jornalista formada pela UCPel-RS, especialista em Relações Internacionais pela UnB e pós-graduanda em Cinema e Audiovisual pela Belas Artes de São Paulo. Podcaster no MIDcast política, #AdyNews e SulCast.

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