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“Empoderamento” é o oposto de Poder Popular

O “empoderamento” é um discurso que trai nossa tarefa história de desmantelar o racismo

João Coimbra

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Ser negro não é fácil. Você esquece que é negro, às vezes. Às vezes você esquece, pensa que é um humano. Mas você é um humano, mesmo sendo negro. Mas às vezes você esquece que é negro. Você foca na correnteza do rio puxando seus pés, você se perde na fumaça que sobe e desaparece, você se entrega pro sabor de uma farofa de ovo muito bem feita – e esquece.

Ser negro não é simples. Você precisa lembrar que é negro como quem precisa lembrar de levar as chaves de casa consigo para não ficar do lado de fora. De sandália você parece um trombadinha, de terno parece um segurança, seja numa moto muito barata ou num carro muito caro você vai ser visto com desconfiança… É preciso estar atento, ou você pode ser lembrado pelo mundo exterior a você que você é negro. E, mesmo que não te mate, isso dói.

Quando a dor passa, a indignação fica. E a vontade de mudar, mas mudar o quê? Sua postura frente ao racismo, o racismo contra você ou os dois? Como o título já entrega, nosso assunto vai ser sobre essas duas formas de responder essa pergunta – e, com sorte, chegaremos dialeticamente até uma “terceira”.

De Frantz Fanon, quero retirar duas conclusões que nos servem de ponto de partida: uma, que o racismo é um problema do real, concreto, material; a segunda, que nossa geração tem frente a si uma tarefa histórica, que pode ser cumprida ou traída.

A primeira significa que o racismo não é paralelo à vida real, não existe só no mundo das ideias. O processo histórico que nos antecedeu forçou a pobreza contra negros e indígenas, em favor dos brancos. Não se trata aqui de discutir exceções, mas a regra: não ser branco significa que você não teve herança. Ou “berço de ouro”, como dizem os brancos.

E se não tivemos herança, não foi por nossa culpa nem mesmo por culpa dos nossos ascendentes, porque eles foram roubados das suas terras e de seu trabalho. Assim, dizer que o racismo é um problema do real é entender que de nada vale que você nos aborde numa mesa de bar e diga “admiro muito sua luta” ou “eu também sou um pouco negro/indígena”. Isso não é ser antirracista, é ser inconveniente. Sendo o racismo um problema do real, o antirracismo também deve estar no campo da materialidade, do concreto, do tangível.

A segunda conclusão é uma consequência lógica da primeira: nossa geração tem uma tarefa histórica. Abolir o racismo por completo, sem medo de dizê-lo. E, sendo o racismo um problema concreto, destruir o racismo significa necessariamente destruir o sistema econômico que mantêm essa injustiça, essa riqueza acumulada cuja origem é o crime colonial.

Frente à imensidão dessa tarefa, dois caminhos se apresentam: cumpri-la ou traí-la. Cumpri-la significa entender que antirracismo é uma postura radical anti-sistema, ou seja, só será antirracista aquele que busca a transformação completa do mundo a sua volta. Não se trata de “cada um faz sua parte, já fiz a minha”, como se “não ser racista” bastasse. É preciso ser antirracista, digo com a segurança de Angela Davis, e ser antirracista significa destruir o capitalismo e suas instituições.

Nossa tarefa histórica também pode ser traída, e essa traição geralmente começa com um “veja bem” ou um “não é bem assim”. Trair nossa tarefa histórica de desmantelar o racismo significa defender que é impossível desmantelar o racismo. E, a partir dessa “impossibilidade”, o traidor da raça defenderá apenas medidas paliativas – que se limitam a aliviar os sintomas – de uma doença curável.

É aqui, nesse particular da traição da nossa tarefa histórica, onde podemos afirmar que “empoderamento” é o oposto de Poder Popular. Empoderamento se entende como soluções a nível individual para problemas financeiros e de autoestima, no intuito de garantir “poder” para a pessoa negra. Também recebe o nome de Tombamento ou Geração Tombamento, em referência à cantora Karol Conká.

Soluções essas que, na esfera econômica, se resumem a vender a ideia de um “empreendedorismo negro”, ou a narrativa do “trabalhador honesto” – leia-se, submisso – que mantêm sua cabeça baixa e assim consegue galgar uma posição de médio conforto financeiro. Na esfera psicológica, o empoderamento representa uma remodelação estética do indivíduo negro: roupas, unhas, cabelos, maquiagens… Como uma afirmação de individualidade e originalidade, o dito “empoderamento” é recebido pelo mercado de braços abertos, e a prova disso é o ainda crescente número de influencers negros que emprestam sua imagem para as grandes marcas. Retroalimentando-se, o discurso do empoderamento convida os demais jovens negros a se tornarem um desses influencers, “embaixadores de marca” para outros jovens negros, e assim sucessivamente.

Empoderamento é um discurso que visa convencer o indivíduo negro que ele pode sair do pesadelo com a própria força, “basta querer”/”veja exemplos de sucesso”. Empoderamento é um discurso que se comunica diretamente com a agonia da raça, mas esconde o fato de que nossa pobreza é consequência direta dos navios negreiros, que nossa baixa autoestima é um projeto político colonial qual ainda não foi desaparelhado.

No mais, digo mais uma vez o que penso sempre: ser negro não é fácil, ser negro não é simples. A vida real é uma vida feita refém pelo sistema capitalista. O Capitalismo, sendo um sistema político-econômico derivado do duplo genocídio da escravidão dos povos negros e roubo de terras dos povos indígenas, mantem-se racista. É preciso pagar o aluguel, é preciso pegar o ônibus, é preciso não ser confundido com ladrão, é preciso aprender a se amar, é preciso engolir o choro. Tudo ao mesmo tempo.

Aliviar a febre não vai sarar a doença. Não há poder no “empoderamento”, porque o “empoderado” é alguém que trabalha para o poder, que é a manutenção da ordem capitalista. E sim, ser “empoderado” é mais confortável que ser um coitado, mas esse sempre foi o plano do colonizador: alguns pretos são domésticos e mansos, esses dormem na esteira e gozam do privilégio de comerem sobras; outros são imprestáveis, deviam agradecer de poderem passar o dia trabalhando. “Seje manso que o patrão bate menos ni suncê”, diz o negro que dorme na casa grande – ou na FIESP.

Por isso, o “empoderamento” é o oposto de Poder Popular. É um discurso que trai nossa tarefa histórica de desmantelar – e não simplesmente aliviar a nível individual – o racismo. É um discurso que tenta vender soluções que é o próprio sistema capitalista quem causa: a pobreza e a autoestima abalada do nosso povo.

Frederick Douglass, o intelectual negro que foi escravizado e que ensinou a si mesmo a ler, afirma que a opressão sofrida por um povo será igual a capacidade máxima daquele povo de suportar uma opressão; Frantz Fanon, muitos anos depois, dirá que o colonialismo não é só resultado das condições objetivas e históricas de um país, como também depende da atitude das pessoas diante àquela violência.

É preciso viver dentro do sistema capitalista, assim como é preciso abrir espaço para vivermos fora dele. É preciso abdicar à traição da raça, é preciso que busquemos nosso poder coletivo. E essa busca já existe desde o primeiro momento em que o português sequestrador pisou em África.

De lá pra cá, não está sendo simples, não está sendo fácil. Mas nós temos uns aos outros. Nossa vitória é tão certa quanto a cor da nossa pele.

Aproveitando o ensejo….
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João Coimbra Sousa é advogado criminalista, comunista, mestre em direitos humanos internacionais pela Arizona State University e doutorando em estudos africanos na Universidade Federal da Bahia.

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