Connect with us

Indígenas

Nota do povo Tembé-Tenetehara exige respostas sobre o assassinato de liderança no Pará

Isac Tembé foi assassinado por policiais militares enquanto caçava nas proximidades da Terra Indígena Alto Rio Guamá na última sexta-feira (12)

Karibuxi

Published

on

Após o assassinato da jovem liderança Isac Tembé, de 24 anos, na última sexta-feira (12), nas proximidades da Terra Indígena Alto Rio Guamá, nordeste do Pará, o povo Tembé-Tenetehara veio, através de nota pública, solicitar respostas da Justiça, perícias urgentes e também a presença da Fundação Nacional do Índio (Funai), Ministério Público e demais órgãos competentes em seu território. Isac foi morto por policiais militares.

Isac era formado em história, atuante no movimento indígena e na organização de seu povo e estava construindo sua casa juntamente com sua companheira, que está grávida.

A Secretaria de Segurança Pública do Pará disse que os policiais foram acionados para verificar um suposto roubo de gado em uma fazenda no município de Capitão Poço e “os policiais foram surpreendidos por disparos de arma de fogo quando chegaram ao local e que reagiram pra se defender”. Ainda segundo os envolvidos, um revólver calibre 38 foi encontrado ao lado do corpo de Isac.

A versão é contestada pelo povo Tembé. “O Isac não era um bandido, o Isac estaria assumindo a vaga de professor de história, ao contrário do que a polícia fala que o Isac era um bandido. O Isac não era essa pessoa. O Isac era uma pessoa querida dentro do povo dele e respeitado (…) essa história que a polícia diz, que estariam com armas, estão mentindo, porque nem arma dessa forma aqui na aldeia ninguém usa, revólver ninguém usa”, disse Neto Tembé, cacique da aldeia Jacaré e irmão da vítima.

A Corregedoria da Polícia Militar também irá investigar o caso. A Funai afirmou que está acompanhando o caso, e o Ministério Público Federal solicitou informações das polícias federal, civil e militar.

Leia, na íntegra a segunda e terceira notas públicas do povo Tembé-Tenetehara

Terceira nota pública do povo Tembé-Tenetehara

Cinco dias após a brutal execução de nosso parente Isac Tembé, queremos saber :

1- Quem da polícia executou Isac?

2- Quem mandou a polícia executar Isac?

3- Onde Isac foi executado?

4- Cadê o documento de entrada e de saída do corpo de Isac da unidade de atendimento de saúde em Capitão Poço ?

Essas são apenas algumas das perguntas que permanecem sem resposta.

O povo Tembé também faz as mesmas perguntas que a imprensa tem nos feito dentro desses cinco dias de execução da nossa jovem liderança e professor de história, Isac Tembé, que saiu para caçar e voltou depois de mais de 24h morto dentro de um caixão.

Nunca o povo Tembé chorou tanto a morte de um parente como tem chorado a execução de Isac. A alegria de nosso povo de viver que se refletia em nossas danças e rituais sagrados foi tirada junto à vida de nosso menino sonhador.

Nosso luto tem sido marcado pela dor cruel da impunidade, além da saudade. Nos sentimos acuados e sem proteção dentro de nosso território.

Tem sido muito doloroso fazer o encantamento do espírito de Isac para que continue entre nós e venha dançar em nossas festas, pois não estamos conseguindo lidar com sua partida repentina.

Em nossa cultura não se pode interromper a vida de um jovem. Aqui nascemos, nos tornamos crianças, jovens, adultos e anciãos; aí sim podemos virar encantados. Esse é o rito normal da natureza e da vida. Para nós, essa é uma condição natural e como todos os povos queremos ver nossa cultura valorizada e respeitada.

O que dizer aos nossos jovens que estão profundamente abalados pela execução de uma de suas lideranças? Queremos que o Estado brasileiro responda para nós o que não estamos conseguindo responder aos nossos jovens: por que a polícia que deveria guardar nossas vidas tirou a vida de um inocente?

Estamos em luto e cumprindo com o ritual sagrado de encantamento do espírito de Isac, mas não vamos deixar de lutar e cobrar justiça dos “homens” brancos.

O povo Tembé tem justiça e sabe fazer justiça. A morte de nosso filho não ficará sem resposta e não cairá na impunidade reinante neste país.

#PorqueApoliciaExecutouIsac

#JusticaPorIsac

#IsacProfessorNaoBandido

Terra indígena Alto Rio Guamá, Capitão Poço, PA, 17 de fevereiro de 2021

Segunda nota pública do povo Tembé-Tenetehara

“O coração do povo Tembé-Tenetehara sangra com o brutal assassinato do nosso jovem guerreiro Isac Tembé. A bala que lhe tirou a vida, com apenas 24 anos, atingiu a todos que desde tempos imemoriais habitamos essa terra e fazemos a permanente defesa da floresta e de nossos saberes tradicionais.

O jovem Isac foi executado a tiros por policiais militares na noite da última sexta-feira, 12. Ele saiu para caçar depois de um dia de trabalho na construção de sua casinha para morar com sua família. Perguntamos: por que esses agentes da segurança pública servem de milícia privada para fazendeiros que invadem terra indígenas? Por que chegaram atirando contra nossos jovens, filhos, netos e sobrinhos, que caçavam, pratica que faz parte da cultura de nosso povo?

A Polícia Militar assassinou duas vezes Isac Tembé: mataram seu corpo e tentam matar sua memória quando atacam a índole de nosso jovem guerreiro e liderança exemplar.

Isac era um cidadão honrado, professor de história, atuante na comunidade e na organização da juventude. Sua esposa está grávida e em breve dará à luz a mais uma criança Tembé, garantia da continuidade deste povo originário. Jamais se envolveu em qualquer ato ilícito e nunca em sua vida portou ou disparou uma arma de fogo.

Por isso, repudiamos como mentirosa a versão dos policiais militares, que alegam ter reagido a uma agressão a tiros. Somos um povo da alegria e da festa; um povo pacífico, ordeiro e cumpridor da lei. Exigimos das autoridades uma apuração rápida, transparente e rigorosa, a fim de identificar e punir os responsáveis por esse crime.

Nosso território sofre diariamente invasões e ataques por parte de exploradores ilegais de madeira ou de fazendeiros que insistem em manter a ocupação de partes da Terra Indígena Alto Rio Guama, através de cabeças de gado e de outras atividades econômicas. Há décadas lutamos contra essa violência e não vamos parar até que nenhum metro de nossa terra esteja ilegalmente ocupado. Não temos medo. A Constituição Federal protege nossos direitos e o Estado brasileiro precisa fazer cumprir o que manda a Lei maior.

Apelamos às autoridades do Brasil e do mundo para que não nos deixem sós!

Exigimos que Funai, MPF, Polícia Federal e todos os órgãos competentes venham até o nosso território e vejam o que passamos.

Exigimos perícia no local do ocorrido. Exigimos resposta urgente pois não vamos nos calar e deixar que esse crime permaneça impune.

Que a memória viva de Isac Tembé fortaleça nossa caminhada.

Que o espírito dos nossos ancestrais guie o povo Tembé-Tenetehara em sua luta em favor da vida.

Convocamos a imprensa e as autoridades para uma reunião pública, nesta segunda (15), às 10 horas, na aldeia São Pedro, Terra Indígena Alto Rio Guamá, ocasião em que o povo Tembé decidirá o caminho da luta em busca de justiça.

Exigimos justiça! Punição dos assassinos e mandantes da morte de Isac Tembé!”

Aproveitando o ensejo….
Aqui na Fonte BR, trabalhamos muito para entregar para vocês informações de qualidade amparadas unicamente na realidade dos fatos. Que tal apoiar o jornalismo independente que fazemos para você?
Clique aqui e seja um assinante. Fortaleça o bom jornalismo.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Escolha a Fonte!

Que tal apoiar o jornalismo independente que fazemos para você? Seja um assinante. Fortaleça o bom jornalismo. 

X