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Brasil

O protagonismo das mulheres na ciência

Infelizmente, muitas mulheres não encontram espaços e oportunidades na mesma proporção como seus colegas homens no meio acadêmico. Ainda vemos mesas redondas, palestras e eventos recheados de pesquisadores, muitas vezes com uma pesquisadora mulher, quando muito.

Mellanie Fontes-Dutra

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Na década de 20, Grunya Sukhareva exercia sua profissão em uma clínica psiquiátrica infantil, em Moscou. Nascida em Kiev, pertencente a uma família judia, Grunya saiu da sua cidade natal para trabalhar em Moscou, em 1924, quando conheceu um menino de 12 anos de idade com uma série de comportamentos atípicos. Autodidata para a leitura aos 5 anos de idade, o menino passava os dias lendo tudo que conseguia, deixando todos os brinquedos de lado.

O padrão atípico de locomoção, bem como a preferência pela companhia de adultos, no lugar de crianças, chamou a atenção de seus pais que procuraram orientação médica. Grunya recebeu este menino em seu consultório e prontamente o observou atentamente, descrevendo-o como “um tipo introvertido, com uma inclinação autista para si mesmo”.

O termo autismo (que denota um “estado voltado para si”) foi cunhado pelo médico psiquiatra alemão Paul Bleuler, em 1911, caracterizando um conjunto de sintomas que indivíduos com alguns casos severos de esquizofrenia poderiam apresentar.

Grunya estava diante da primeira caracterização do que seria conhecido mais tarde, na nossa atualidade, como o Transtorno do Espectro Autista. Grunya poderia, em vida, ter recebido um amplo reconhecimento por tamanho avanço no campo dos transtornos do neurodesenvolvimento. Todas as palestras subsequentes sobre autismo citariam ela, fora todas as citações no meio acadêmico como a primeira pessoa a descrever esse transtorno em uma criança de 12 anos. Infelizmente, isso ficou na esfera do que poderia ter acontecido.

Não faz muito tempo que se atribuía a descrição dos primeiros casos de autismo a Leo Kanner e a Hans Asperger (que, mais tarde, teve seu sobrenome mencionado na Síndrome de Asperger, uma manifestação dentro do Transtorno do Espectro Autista), que publicaram seus trabalhos quase duas décadas após a primeira descrição de Grunya.

O que aconteceu? Em 1925, Grunya publicou um artigo descrevendo em detalhes comportamentos do tipo autista em seis meninos. No entanto, apenas uma pequena fração das publicações russas foi traduzida para outros idiomas e, na tradução dessa publicação de Grunya para o alemão, houve um erro de tradução de seu sobrenome para “Ssucharewa”. O artigo ganhou a tradução para inglês apenas em 1996, 15 anos após sua morte. Outros possíveis motivos são levantados, como a não-citação do trabalho de Grunya por Asperger, que cooperava com o partido nazista e não teria citado Grunya por ela ser judia. Fato é que a ciência se esqueceu de Grunya, e infelizmente, não foi somente dela.

Essa história se repete, com diferentes narrativas, para Chien-Shiung Wu, que trabalhou no projeto Manhattan no desenvolvimento da bomba atômica, em que todas as suas contribuições foram desconsideradas por seus colegas, Chen Ning Yang e Tsung Dao Lee, os quais foram laureados com Prêmio Nobel a partir da descoberta de Wu sem sequer mencioná-la. Ida Tacke, a qual contribuiu imensamente para a área da química e física atômica, mas não recebeu os créditos pela descoberta do masúrio, elemento de número atômico 43 da tabela periódica, atualmente chamado de tecnécio a partir da “redescoberta” por Carlo Perrier e Emilio Segre.

Cecilia Payne, responsável pela descoberta dos elementos que constituíam as estrelas, foi encorajada a não publicar seus achados pelo revisor do trabalho, Henry Norris, que quatro anos mais tarde, publicou um estudo sobre os elementos que constituíam o Sol, demonstrando as mesmas conclusões de Payne. Rosalind Franklin, que descobriu a estrutura do DNA, o principal constituinte do nosso material genético, não teve o reconhecimento por tamanha descoberta. James Watson e Francis Crick tomaram conhecimento dos seus dados.

Crick não somente a convenceu de publicar esses dados após a publicação deles, como ambos foram laureados com o Prêmio Nobel, deixando a visão de que Franklin confirmou os achados, quando, na realidade, foi a protagonista dessa grande descoberta.

Segundo dados de um levantamento da UNESCO no período de 2009 a 2017, apenas 35% dos estudantes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática são mulheres. Atualmente, temos muitas iniciativas em prol das mulheres na ciência e da construção e defesa de seus espaços nos meios científicos. De acordo com os dados do CNPq, Inep e do Parent in Science, as bolsas de produtividade em pesquisa para mulheres correspondem a 36% do total. O relatório da Elsevier Gender in the Global Research Landscape aponta que 75% dos trabalhos nas áreas de ciência da computação e matemática são realizados por homens.

Iniciativas em prol das mulheres na ciência, e em defesa da construção e ocupação desses espaços por elas, têm surgido, não só resgatando as tantas histórias das mulheres do passado, como reconhecendo e amplificando as mulheres do hoje e do amanhã. A fundação L’Oréal juntamente com a UNESCO celebram anualmente a premiação da L’Oréal-UNESCO Para as Mulheres na Ciência. Iniciativas como o 500 Women Scientists, a qual tem grupos em muitos locais do mundo, incluindo em diversas cidades no Brasil, reúnem mulheres e ações em prol da maior inserção e inclusão das mulheres na ciência. O Parent in Science – Maternidade na Ciência traz a discussão sobre a maternidade e a paternidade durante a trajetória acadêmica, bem como seu impacto na carreira científica de mulheres e homens.

Nesse dia 11 de fevereiro, em que celebramos o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, faço essa pequeníssima revisitação histórica para reconhecermos o brilhante trabalho de tantas mulheres, cujas descobertas revolucionaram nossa compreensão acerca da realidade e foram pilares para grandes passos subsequentes.

Infelizmente, muitas mulheres não encontram espaços e oportunidades na mesma proporção como seus colegas homens no meio acadêmico. Ainda vemos mesas redondas, palestras e eventos recheados de pesquisadores, muitas vezes com uma pesquisadora mulher, quando muito. Revisitar nossa história é um dever para não reverberarmos os erros do passado.

Em 2017, uma carta foi enviada para a revista Journal of Pediatric Neurosciences, trazendo um tributo a Grunya Sukhareva por todas as suas contribuições anteriormente descritas e, apontando uma ressalva pertinente: “negando a originalidade e a exatidão de seu relatório, mais de 90 anos após seu lançamento, seria um erro histórico, que esperamos não seja perpétuo”. Que a ciência nunca mais esqueça de suas cientistas. Por Grunya, por Wu, por Franklin, por todas que, hoje, somos cientistas, e por todas que se tornarão no amanhã.

Aproveitando o ensejo….
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Sou biomédica, mestra e doutora em neurociências pela UFRGS, realizando pós-doutorado em Bioquímica pela mesma instituição. Pesquiso sobre neurociência e desenvolvimento, formação de regiões corticais de processamento sensorial e circuitaria inibitória. Também sou divulgadora científica pela União Pró-Vacina, Equipe Halo, Grupo Infovid e Rede Análise COVID-19, da qual sou fundadora e coordenadora. Meus principais interesses na divulgação científica estão em torno das vacinas e seu desenvolvimento, bem como variantes e as relações do sistema imunológico com o SARS-CoV-2 (vírus da COVID-19). Fui uma das 5 principais vozes sobre a pandemia no twitter em 2020 e seguirei me palestrando em 2021, aproximando as pessoas da ciência!

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