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As cores opacas da ciência

Julio Ponce

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focused biologist studying plant leaf with microscope

Sabemos do racismo e da homotransfobia que permeiam as relações sociais no Brasil. Qualquer um a par das notícias sabe das milhares de Emilys, Rebeccas, João Pedros, João Albertos, Dandaras e Guilhermes que perdemos a cada ano. Ver atitudes que replicam essa exclusão em rede nacional no reality show de maior audiência do país me faz refletir sobre como pensamos a nesses grupos dentro do meio científico.

Os dados são escassos, mas usando os critérios do censo 2010, o número de pretos e pardos excede 50% da população brasileira (pequeno adendo: a própria descrição de pardo, aceita nos critérios de auto declaração do IBGE, pode abrir uma grande discussão sobre colorismo; não é o intuito do texto, apesar de entender e respeitar a importância do tema).

Quando observamos os exames de entrada na USP, e em especial, os aprovados, vemos uma mudança bastante sensível na composição dos universitários. Em 2010, essa porcentagem não ultrapassava 6%; dez anos depois, estava em 25,2%.

Atribui-se esse sucesso às políticas de ação afirmativa. Importante aqui ressaltar e desmistificar a errônea afirmação de alguns críticos das cotas, de que os estudantes não seriam aptos a frequentar e concluir os cursos superiores: não só não há diferença de desempenho entre cotistas e não cotistas, como a permanência entre os que obtiveram acesso com auxílio de alguma política afirmativa é maior. É um passo importantíssimo, mas apenas o primeiro de uma jornada longa a ser trilhada.

Esse aumento, ainda que seja motivo para celebrar, é, no entanto, ainda muito baixo. Isso se reflete também em outros indicadores. Estudo do IPEA de 2020 mostra clara a evolução: dos formados em 1960, apenas 5% eram negros.

Em 1995, apenas 2% dos negros frequentavam curso superior, contra 9% dos brancos. Dentre todos os universitários (de 18 a 24 anos), seja em instituições privadas ou públicas, 43,7% são negros, porcentagem que era de 22% apenas 15 anos antes. Ainda assim, considerada a defasagem histórica, de todos aqueles que possuem curso superior completo, só 32% são negros e pardos. 

Isso acaba por se refletir também no corpo docente: o aumento de auto declarados negros e pardos entre professores universitários em 2018 foi de apenas 8% em relação a 4 anos antes (a mesma base indica salto de 75% entre os alunos). Atualmente apenas 16 a cada 100 professores de curso superior são negros.

Os indicadores de acesso aos cursos de pós-graduação, em especial stricto senso, escancaram ainda mais essa disparidade. Em 2018, um em cada quatro ingressantes em Mestrado e Doutorado eram negros. Na Medicina, essa proporção cai para um em cada dez.

Não ajuda que os salários, oferecidos como bolsas de estudos, não tenham reajustes desde 2013, e afastem ainda mais pessoas do mundo acadêmico, em especial aquelas que dependem de uma remuneração adequada para poder continuar suas pesquisas. Em tempo: as cotas de 20% que estavam em vigor para aumentar o acesso de pesquisadores negros e negras foram revogadas no último ato do Ministro da Educação Weintraub antes de sua desonrosa exoneração.

O problema não é restrito só ao nosso país. Em um editorial contundente, a respeitada revista científica Cell apontou que o meio científico tem um problema sério de racismo, apontando a ausência de colegas negros em seu próprio corpo editorial, a falta de pesquisas que incluam dados de populações negras e episódios vergonhosos de exploração de corpos e vidas negras para fins supostamente científicos, de forma absolutamente desprovida de qualquer ética. 

É a sistemática exclusão de uma parcela que representa uma maioria, ainda com espaço restrito nas universidades, seja nas carteiras ou nas cadeiras. Avançamos, sim, mas podemos colocar essas importantes conquistas a perder.

Para a população LGBTQ+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Transgêneros, e Queers), o acolhimento também não é dos melhores. Pessoas desse grupo tem 8% menos chance de permanecerem em programas de STEM (sigla que engloba graduações e pesquisas em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) do que colegas heterossexuais, apesar de se engajarem mais em programas de iniciação científica.

No geral, pessoas LGBTQ+ estão presentes cerca de 20% menos nesses grupos do que se esperaria se houvesse uma representação populacional proporcional. Isso se deve, possivelmente, à expectativa de comportamentos hetero-normativos, que afastam uma sensação de pertencimento, e levam a um ambiente mais hostil.

Essa hostilidade encontra também espelho em alguns comportamentos de militantes, por mais bem-intencionados que possam parecer na superfície. Um grupo que lute por direitos, representatividade, igualdade, e exclui um dos seus (aquele mesmo que deveria ser cuidado e acolhido) é uma militância sem progresso, sem união, sem propósito positivo.

Cabe aqui também apontar outro achado científico inspirador ( e que talvez devesse servir de norte para a academia também): grupos diversos estimulam pensamento complexo e multiplicidade de opiniões, fomentando um ambiente mais propenso a achar soluções e descobertas inovadoras.

Tenhamos, portanto, mais Alan Turings, mais Katherine Johnsons. O meio científico só tem a ganhar com isso. 

bacharel em Ciências Moleculares e Farmácia Bioquímica, mestre em Fisiopatologia Experimental e Doutor em Epidemiologia, todos pela USP.

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