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Ásia

O que você precisa saber sobre a líder de Mianmar presa após golpe de Estado

Aung San Suu Kyi é uma das poucas personalidades contemporâneas de projeção mundial que vivenciou uma ascensão e queda em um período tão curto de tempo

Isabela Afonso

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Aung San Suu Kyi foi de vencedora do Prêmio Nobel da Paz e símbolo da luta pelos direitos humanos a cúmplice dos militares na expulsão e no genocídio da minoria muçulmana Rohingya em Mianmar. E, agora, ironicamente, ela acabou sendo detida e removida de seu cargo de conselheira de Estado pelos militares.

Vida e carreira política 

Nascida em 19 de junho de 1945, em Mianmar, antiga Birmânia, Suu Kyi ingressou na vida política em meados de 1988, aos 43 anos, quando seu país era abalado por protestos estudantis que buscavam derrubar o regime socialista unipartidário. Sua atuação foi essencial para reunir as diferentes forças oposicionistas da época. No entanto, as Forças Armadas deram um golpe no mesmo ano colocando fim às manifestações populares.

Após o golpe, os militares prometiam novas eleições e um sistema pluripartidário. Nessa mesma época, Aung San Suu Kyi criou, com alguns ex-militares, a Liga Nacional pela Democracia (NLD), em que foi secretária-geral. Entretanto, em 1989, Suu Kyi foi presa em regime domiciliar, onde passou um total de 15 anos isolada na cidade de Yangon. 

As eleições só se concretizaram de fato em 1990. Surpreendentemente a NLD obteve 80% dos assentos parlamentares, porém o resultado das urnas jamais saiu do papel. Foi somente em 2015 que eleições livres foram realizadas, dando a vitória à legenda política de Suu Kyi.

Apesar de Aung San Suu Kyi ter vencido a corrida eleitoral ao cargo de Presidência, ela foi impedida de assumir o mandato como tal, já que seu marido era estrangeiro. Por isso, criaram o cargo de conselheira de Estado especialmente para ela, o que equivale à atuação de um primeiro-ministro. 

Aparentemente, a democracia havia finalmente se estabilizado em Mianmar. Por outro lado, aos poucos feridas ficaram novamente expostas: o processo de paz no país ainda marcado pela guerra civil que havia promovido duros golpes; os êxitos econômicos não saiam do papel; e a maioria das tentativas de mudar o sistema político do país fracassava.

A atuação de Aung San Suu Kyi no genocídio dos rohingyas

Em meio a todo esse contexto de tensões políticas e econômicas, em outubro de 2016 e agosto de 2017 a milícia muçulmana Arakan Rohingya Salvation Army (Arsa) atacou forças de segurança de Mianmar no estado Rakhine, que fica no leste do país.

Fred Dufour / AFP

O Exército Nacional reagiu com violência. Mais de 700 mil rohingyas fugiram para Bangladesh, onde relataram atrocidades dos militares incluindo massacres e estupros. A ONU classificou a situação como “limpeza étnica”.

O que se esperava da líder do país, tão aclamada na luta pelos direitos humanos, era mais do que um silêncio reticente. Aung San Suu Kyi só se manifestou muito mais tarde e de forma vaga. Sua atuação lhe gerou uma série de críticas por diversos ativistas dos direitos humanos e antigos apoiadores, que passaram a vê-la  como cúmplice dos militares. Inclusive, algumas condecorações e prêmios, entre os quais o da Anistia Internacional, lhe foram retiradas.

Do auge às contradições

Em 2019, a República da Gâmbia iniciara um processo contra Mianmar perante a suprema corte das Nações Unidas por violar a convenção da ONU para prevenção e punição do genocídio. Aung San Suu Kyi representou Mianmar diante Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, e seu depoimento desestruturou de vez o que restava da sua reputação no exterior, uma vez que negou à corte que os militares tivessem pretendido exterminar os rohingyas totalmente ou em parte. A sentença definitiva sobre o caso só sairá daqui alguns anos. 

CIJ/Frank van Beek

Contraditoriamente, no contexto da sua campanha de reeleição até então em curso, Suu Kyi quis justificar seus erros se colocando como figura protetora da população de Mianmar, unindo seus admiradores e seus antigos inimigos, os militares.

A biografia da política birmanesa, como se pode ver, é um tanto contraditória. O que não justifica o golpe militar desta segunda-feira (01/02). Há ainda muitos pontos de interrogação a serem respondidos pela frente, porém, mais uma vez, Aung San Suu Kyi tem aparentemente um futuro político fora de seu controle.

*com informações de Reuters, DW, BBC e El País.

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Jornalista e comunicadora, Isabela é apaixonada por jornalismo, política e bons livros. Atualmente, é mestranda em Comunicação e Consumo pela ESPM-SP.

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