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América do norte

Ex-membro diz que Ku Klux Kan é um grupo terrorista

Apesar de vários ataques orquestrados pelo grupo, ele ainda não é classificado como grupo terrorista pelas autoridades dos Estados Unidos

Ady Ferrer

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Scott Sheperd passou mais de 20 anos como membro do maior grupo de supremacia branca dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan. Sheperd deu uma entrevista para a Newsweek em que contou sua relação com o grupo.

“Isso não é algo novo. Eles são um grupo terrorista desde o nascimento. Eles não são mais só domésticos. Eles estão na Alemanha, eles estão em Londres. Eles estão em muitos, muitos lugares do mundo”

Sheperd entrou no grupo ainda na adolescência. Segundo o próprio, o grupo lhe deu uma família e uma sensação de pertencimento ao qual ele procurava desesperadamente. Scott sofreu com um pai alcoólatra e começou a beber e usar drogas muito cedo.

Depois de 20 anos como membro da KKK, Scott foi preso por dirigir sob a influência de álcool e sentenciado a tratamento de reabilitação. Lá, ele afirma ter entrado em contato com pessoas de várias raças que o fizeram mudar. Em 1994, Scott saiu da KKK.

Na “nova vida”, Sheperd conheceu Daryl Davis, um músico que já tirou mais de 200 homens do Klan. Segundo o músico, a diferença de agora para o início do grupo é que as pessoas brancas estão lutando contra a ideologia supremacista. Ele cita o caso de George Floyd, que morreu com o joelho de um policial branco no pescoço. As manifestações que surgiram após sua morte tiveram “barricadas de brancos”, ou seja, pessoas brancas fazendo correntes humanas para que a polícia não usasse da violência contra os manifestantes negros.

Foto: divulgação Daryl Davis

Convertendo extremistas

Daryl Davis é um pianista que já tocou com grandes nomes, como BB King e Chuck Berry. Em 1983, ele foi convidado a tocar no Silver Dollar Lounge, em Frederick, Maryland. Daryl era o único negro no local. Após o show, ele foi abordado por um homem que estava espantado com o seu talento “para um homem negro”. Apesar de ofendido, Davis seguiu a conversa, curioso, e descobriu que o homem era membro da Ku Klux Kan. Diz o músico que foi aí que ele percebeu ter um certo dom para converter extremistas.

Davis viaja os Estados Unidos visitando membros do Klan e até participando de suas reuniões. Ele se tornou amigo dos membros – e a maioria já desistiu do grupo. Ele também é o primeiro homem negro a escrever um livro sobre a Ku Klux Klan, “Klan-destine Relationships: A Black Man’s Odyssey in the Ku Klux Klan”, publicado em 1998.

“Em 1968, quando eu tinha 10 anos, eu sofri um incidente racista. Eu estava no grupo de Escoteiros e nós estamos em um desfile quando pessoas começaram a jogar pedras e coisas em mim. Eu não entendi o porquê uma pessoa iria fazer isso comigo e eu formei a pergunte: ‘como você pode me odiar quando você nem me conhece?'”

Segundo Davis, para ele não faz sentido que as pessoas simplesmente sejam racistas e odiosas. “Eu fiquei curioso com o racismo desde então, mas ainda assim ninguém consegue responder a pergunta”, diz. Apesar dos esforços, o músico confessa que há pessoas sem salvação. No entanto, é preciso agir para saber.

“As pessoas precisam parar de focar nos sintomas do ódio, é como colocar um band-aid em um câncer. Você precisa tratar isso na raiz, que é a ignorância. A cura para a ignorância é educação. Você conserta a ignorância, não há nada a temer. Se não há nada a temer, não há nada para odiar. Se não há nada para odiar, não há nada nem ninguém a destruir”

Mudanças no comportamento do Klan

A KKK já não é mais um grupo único. Ela se dividiu em outros pequenos grupos como o Knights Party, Loyal White Knights e Patriotic Brigade Knights. Davis aponta também para a importância de caracterizar a Ku Klux Kan como grupo terrorista para dar exemplo aos outros grupos que surgiram do original.

Segundo Sheperd, a divisão torna a KKK um grupo “mais perigoso que o Estado Islâmico“. A problemática é que quanto mais grupos, mais difícil é a definição dos membros.

Ainda segundo o ex-membro, o Klan tem trabalhado em uma mudança de imagem que está agora completa. Os membros estão largando as vestes e capuz brancos e usando camisas pólo e calças caqui – Sheperd dá o exemplo do ataque em Charlottesville, na Virgínia, em 2017.

Foto: Anthony Crider

Ataques orquestrados pelo grupo

A Ku Klux Klan se formou em 1865 por um grupo de soldados Confederados, no final da Guerra Civil dos Estados Unidos. Os Confederados, estados do sul, lutavam pela continuação do sistema escravagista e foram derrotados pelos abolicionistas estados do norte. O grupo tem passado por diversas transformações ao longo do tempo, no entanto, uma de suas maiores constâncias é o ódio contra pessoas não-brancas.

Entre os ataques mais recentes do grupo está o de Charlottesville, na Virgínia, em 2017, quando os neo-nazistas tomaram as ruas da cidade em protesto contra a retirada da estátua em homenagem ao General Confederado Robert E. Lee. Os homens gritavam “poder branco” e ofensas à judeus e negros. Grupos antifacistas entraram em confronto com os supremacistas. Em 12 de agosto daquele ano, o supremacista James Fields Jr., jogou o carro contra a multidão, matando uma mulher de 35 anos.

Membros da KKK também estiveram presentes na invasão ao Capitólio no dia 6 de janeiro, em Washington, D.C. A pressão para caracterizar os supremacistas como terroristas domésticos vem de décadas, mas com a invasão se tornou ainda mais intensa.

*com informações de The Guardian, NPR, The New York Times

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Jornalista formada pela UCPel-RS, especialista em Relações Internacionais pela UnB e pós-graduanda em Cinema e Audiovisual pela Belas Artes de São Paulo. Podcaster no MIDcast política, #AdyNews e SulCast.

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