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Brasil

Vacinas e seu legado para além da história

“A que(m) beneficiou uma sociedade imersa em negacionismo? Eles sabiam do legado da vacinação. Não foi por falta de conhecimento”.

Mellanie Fontes-Dutra

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Sempre que nos deparamos com algum documentário revisitando fatos históricos, ou até mesmo a leitura de um texto relatando fatos e comportamentos de tempos anteriores, nosso senso crítico floresce questionando-nos, muitas vezes atônitos, quais circunstâncias e fatores permitiram que tais desfechos acontecessem.

Naturalmente, dado o conhecimento limitado àquele período, observar o passado com a mente do hoje me parece quase trapaceiro com as pessoas do ontem. No entanto, o questionamento e revisitação do ontem pode nos fornecer lições valiosas para o hoje, e para o amanhã e, frequentemente, abstemo-nos de revisitar nossa própria história e, com isso, permitindo-nos reverberar erros já registrados nos livros de história. Será que alguém, no futuro, ao olhar para nós, pensaria como permitimos o hoje ser da forma que é? Primeiro, vamos revisitar um pouco do legado de conhecimento que temos, fruto da nossa história. 

Por volta de 1904, a cidade do Rio de Janeiro conheceu as facetas mais assustadoras da varíola, uma doença viral infecciosa que levava a óbito cerca de 3 a cada 10 pessoas acometidas pela doença, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Dados da Biblioteca Virtual da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) revelam que, somente naquele ano, cerca de 3.500 pessoas morreram na, até então, capital federal, vítimas da doença.

A doença provocada pelo vírus da varíola já era uma antiga conhecida no mundo, com relatos anteriores a era cristã, sendo responsável por epidemias devastadoras e mais de 300 milhões de mortes somente no século 20, superando doenças como tuberculose e hanseníase, somando mais óbitos que as guerras mundiais, segundo dados da 8ª edição da Revista de Manguinhos da FIOCRUZ.

Foi somente no século 18 que o médico inglês Edward Jenner desenvolveu um método para tentar proteger as pessoas dessa doença: ele observou que algumas vacas tinham feridas (causadas por uma forma da varíola que acomete bovinos) similares às observadas pela varíola em humanos e, mulheres que ordenhavam as vacas acabavam não desenvolvendo a varíola.

Intrigado, Jenner testou essa hipótese de proteção inoculando o material da lesão de uma ordenhadeira em um indivíduo, que não desenvolveu a doença. Replicando o achado em mais indivíduos, ele consolidou os dados em uma publicação em 1798 cunhando o termo vaccínia (do latim, vaccinae que denota a origem do material retirado das vacas), revolucionando nossa história.

Estamos diante da primeira vacina desenvolvida no mundo. Após refinamentos, estudos e análises, em 8 de maio de 1980, a 33ª Assembleia da Organização Mundial da Saúde declarou que “o mundo e todos os seus povos estavam livres da varíola”, marcando a maior conquista da saúde pública da história, graças à vacina e às amplas campanhas de vacinação coordenadas no mundo.    

Alguém poderia questionar dizendo “mas isso foi há muito tempo” e, no entanto, não faz muito tempo que a poliomielite, por exemplo, era um problema muito presente na sociedade brasileira, a partir dos anos 40. Cerca de uma a cada 200 infecções pelo vírus da poliomielite leva a uma paralisia irreversível, geralmente dos membros inferiores.

Entre os acometidos, cerca de 5% a 10% vão a óbito em decorrência da paralisia dos músculos respiratórios, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS Brasil). Com a introdução da vacina da poliomielite, os casos diminuíram em 99%: dos 350 mil casos estimados em 1988, apenas 29 casos foram notificados em 2018.

Por ser uma doença muito contagiosa, o esforço em vigilância e imunização, com a vacina, são necessários. Na década de 80 e 90, extensas campanhas de vacinação em crianças ganharam palco com a criação, em 1986 por Darlan Rosa, da figura ilustre do Zé Gotinha, uma personagem atraente para as crianças, a qual se seguiu até o ano de 2006, levando a conscientização da importância de se vacinar.

São muitas doenças cujas histórias, relatos e acometimentos que marcaram gerações, atualmente, não fazem parte da memória das gerações mais novas, graças ao sucesso das campanhas de vacinação e principalmente do Sistema Único de Saúde (SUS), por disponibilizar de forma acessível e gratuita, essa importante ferramenta de saúde pública. Como a imunização consegue atingir tamanho feito? Por um fenômeno que muito vem se discutindo, chamado “imunidade de grupo”, ou imunidade de rebanho.

Imagine que você está numa sala, com várias pessoas, e uma delas está infectada com um agente infeccioso que se transmite muito rapidamente. Como temos muitos suscetíveis a esse agente, em pouco tempo, boa parte da sala estará acometida, parte dela precisará de cuidados médicos e, infelizmente, uma parcela poderá ir a óbito.

Nesse mesmo cenário inicial, antes que todo este acometimento infelizmente se estabeleça, o que aconteceria se eu tivesse metade dessas pessoas imunizadas, ou seja, não mais suscetíveis a este agente infeccioso? Com certeza, tornaria o trajeto dele de achar alguém suscetível para infectar, muito mais difícil.

Se, ao longo do tempo, eu for recheando nossa sala com um número crescente de pessoas imunizadas, essa rota de transmissão vai ficando ainda mais difícil, até que, em determinado ponto, eu terei uma quantidade de pessoas imunizadas suficiente para não observar novos casos de doença nessa população.

Eis a imunidade de grupo: ainda podemos ter suscetíveis nessa sala, porém os imunizados criam uma espécie de “barreira imunológica” ao redor deles, impedindo que o agente infeccioso circule a tal ponto que consiga atingir esses indivíduos ainda suscetíveis. Somado a uma boa estratégia de vigilância para controlar possíveis novos casos entre os ainda suscetíveis, bem como a conscientização de medidas práticas de prevenção, estamos diante de uma população protegida.

A imunização pela vacina vai muito além da proteção individual, o que já é um ganho imenso. Aliada a campanhas de vacinação amplas, a extensão de sua proteção se projeta para uma sociedade inteira. Os resultados: em 2016, a região das Américas completava 25 anos sem a poliomielite, sendo a segunda doença evitável por vacina a ser eliminada nesta região (1994). Em 2015, foi a vez da rubéola e da síndrome da rubéola congênita. Em 2016, o sarampo.

Por que toda essa revisitação histórica? Porque, desde 2015, essas doenças estão voltando, por conta da baixa cobertura vacinal, que pode ser entendida pela proporção de indivíduos que receberam o esquema completo de vacinação preconizado para uma vacina.

Com baixas coberturas, esses agentes infecciosos voltam a circular pela presença de suscetíveis na população, especialmente crianças. A história nos mostra os benefícios incontáveis das vacinas e a responsabilidade social em decidir vacinar-se em prol da saúde da sociedade.

Ao insistirmos em narrativas sem respaldo científico contrárias à vacinação, com todo o conhecimento histórico e científico dos benefícios e segurança dessa medida de saúde pública, não restam muitas defesas, quando alguém do futuro olhar para os dias de hoje e se questionar “A que(m) beneficiou uma sociedade imersa em negacionismo? Eles sabiam do legado da vacinação. Não foi por falta de conhecimento”.

Aproveitando o ensejo….
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Sou biomédica, mestra e doutora em neurociências pela UFRGS, realizando pós-doutorado em Bioquímica pela mesma instituição. Pesquiso sobre neurociência e desenvolvimento, formação de regiões corticais de processamento sensorial e circuitaria inibitória. Também sou divulgadora científica pela União Pró-Vacina, Equipe Halo, Grupo Infovid e Rede Análise COVID-19, da qual sou fundadora e coordenadora. Meus principais interesses na divulgação científica estão em torno das vacinas e seu desenvolvimento, bem como variantes e as relações do sistema imunológico com o SARS-CoV-2 (vírus da COVID-19). Fui uma das 5 principais vozes sobre a pandemia no twitter em 2020 e seguirei me palestrando em 2021, aproximando as pessoas da ciência!

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