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Um correspondente internacional no Brasil durante a pandemia

O dia seguinte de Thomas Patrick Hennigan, correspondente no Brasil, para o jornal irlândes The Irish Times e para a revista Dublin Review of Books

Nathália Rocha Matos

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Por um momento entre o fim de 2019 e os três primeiros meses do ano de 2020 o “futuro” parecia ser ressignificado.

Os planos para os dias e semanas seguintes não estavam mais no automático. Algo maior do que o amanhã, costumeiramente programado, parecia chegar cada vez mais perto, invisível, sem fazer qualquer barulho. Mas o que ouvíamos aqui e ali era de que se tratava de um risco iminente à saúde de todos, informações que já nos faziam entrar em estado de alerta. 

Para tentar saber o que acontecia e prever o que devíamos fazer e como podíamos agir pelos próximos dias e semanas recorríamos às informações, por vezes desencontradas, mas que em sua maior parte tentavam traduzir o que estava por vir. Não era uma situação temporária e, muito menos, individualmente localizada. Estava pelo mundo todo e toda população, portanto, corria o risco de se encontrar com o mesmo inimigo e adoecer. Um risco que ainda corremos, de um inimigo que ainda nos cerca. 

Desde então se importar com o presente em uma escala maior se tornou hábito, principalmente para, de maneira inédita, irmos compreendendo como seria viver nessa nova realidade. Fomos obrigados a sair do automático e o futuro já não era mais as férias do mês que vem ou o novo filme em cartaz na próxima quinta-feira, o futuro estava ali, quando acordássemos no dia seguinte. 

O dia seguinte de Thomas Patrick Hennigan, correspondente no Brasil, para o jornal irlândes The Irish Times e para a revista Dublin Review of Books, foi o dia em que, em visita ao seu editor na Irlanda, empolgado para comunicar sobre os planos que vinha fazendo para 2020, percebeu que a pandemia começava tomar proporções ainda maiores e teria de voltar ao Brasil às pressas, caso contrário não poderia mais entrar no país devido as restrições que já eram impostas. 

Ao chegar em solo brasileiro teve a certeza de que ele e sua família não se mudariam para Bahia, como planejava há meses. Ele não tiraria o ano sabático que desejava. E também não conseguiria visitar sua mãe na Irlanda, como vinha fazendo desde a morte de seu pai. 

“Estamos esperando a vacina para resolver isso e estou louco para ver ela.”

Com as reviravoltas que teve o futuro que idealizou para 2020, Hennigan continuou vivendo em São Paulo com família, reportando sobre o Brasil e toda a América Latina para os veículos irlandeses com os quais já trabalhava. Ainda assim, mesmo tendo continuado em seu emprego, ele pôde observar e sentir na própria pele o grande impacto econômico que o jornalismo sofreu logo no início da pandemia, um impacto que chegava aos jornalistas, principalmente com o acúmulo de trabalho e cortes nos salários. 

“No início eu estava trabalhando loucamente, especialmente sobre o assunto dos irlandeses presos no Peru e na Bolívia, mochileiros que foram presos reféns lá e o processo do governo irlandês tentando recuperá-los.”

Enquanto Thomas se acostumava com a ideia de mais um ano em São Paulo, cidade que está em sua lista de preferidas pelo mundo, amigos e colegas de trabalho que há tempos não entravam em contato começaram a se preocupar com ele. Um dos principais motivos para isso foi a repercussão negativa que as posições do governo brasileiro frente a pandemia tinham no exterior. Ele lembra que esses momentos foram notáveis, porque o fazia observar como o Brasil causava indignação na forma como assumiu o combate ao novo coronavírus. 

Depois do banho frio do cancelamento de tantos planos, como Thomas descreve, e com o passar dos meses, os jornais começaram a ter uma estabilização da arrecadação. Os rendimentos dos anúncios publicitários começavam a retornar, além dos novos assinantes que começaram a chegar aos veículos de comunicação em busca de informações com credibilidade. Nesse sentido, Tom observa como os momentos de crise escancaram a importância do jornalismo e, consequentemente, como se tornam os momentos em que os jornalistas atuam como principais agentes de garantia para a divulgação de informações apuradas e corretas.

Mesmo com essa estabilização que vem ocorrendo, Hennigan ainda entende que não é a hora de retomar os planos de viver em outro lugar, principalmente por essa decisão envolver colocar-se em risco e também sua família. Nem tampouco ainda seria o momento de retornar à Irlanda para visitar sua mãe, uma vez que a pandemia ainda não teve fim e diversos países exigem períodos de isolamento para quem chega do exterior.

Hoje o novo “dia seguinte” de Thomas, o dia que permita um novo futuro no automático quando os planos possam ser feitos a maiores prazos, deve vir após a vacina. E, enquanto isso, ele diz aproveitar o fato de viver no Brasil, onde as temperaturas mais altas do que as dos países nórdicos nos permitem ficar ao ar livre, de maneira agradável, sem temperaturas negativas, um cenário que Tom aprendeu a gostar há 15 anos e, hoje, não trocaria por um isolamento com lareira e neve. 

Aproveitando o ensejo….
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Jornalista com experiências acadêmicas nos diversos campos do jornalismo, audiovisual, mídia impressa e digital. Coordenadora de atividades da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de São Paulo e Produtora de Conteúdo para a agência de consultoria NEXTT 49+.

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