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Brasil

Porque eu não uso o termo “identitarismo”

Mas o que seria a raça? Num país colonial como o Brasil, a raça é um significante de poder: o quão próximo você está do colonizador

João Coimbra

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Mas o que se quer dizer quando se fala de identitarismo? Arrisco a seguinte definição: é chamado de identitário todo pensamento ou pessoa que nega a realidade e em lugar desta apresenta uma versão onde sua identidade toma o centro das relações sociais.

Mas o que seria a identidade? É aquilo que você é, ou aquilo que o mundo social interpreta que você seja? No que diz respeito a raça, eu digo: identidade é a sua realidade.

Mas o que seria a raça? Num país colonial como o Brasil, a raça é um significante de poder: o quão próximo você está do colonizador. É o que define se você tem “cara de pobre”, se você “parece uma empregada doméstica”, “parece um caboclo do mato”, “parece um bandido”… Nesse sentido, a pessoa racializada é a pessoa estigmatizada, aquela cujo fenótipo remete a uma posição de submissão política e econômica.

Num país colonial como o Brasil, é considerado branco o indivíduo que está mais distante de ser racializado. Aquele cujo fenótipo remete a uma posição de poder. O branco é aquele que “nem parece pobre”, “nem parece bandido”, etc.

Raça no Brasil, portanto, demarca um processo histórico de selvageria europeia contra quem não é branco. Os estigmas contra o negro e o indígena, antes de ser um “ódio injustificado”, escondem mais de 500 anos de violência física, política e econômica: roubo de terras (praticado até hoje), exploração da mão-de-obra (praticado até hoje), brutalidade contra quem se rebela (praticada até hoje).

Para justificar a violência bárbara contra populações inteiras e ao mesmo tempo reclamar para si o título de civilização, o europeu invasor inventou para si a “raça branca”, e para os outros a raça negra e indígena. Baseado nessa diferença (que demarcaria sua “supremacia”), pilhou e sequestrou e estuprou e escravizou. Baseado nessa diferença, construiu estruturas políticas e jurídicas que não só garantissem manter o resultado de seus crimes, como também lhes concedessem a “legitimidade” da lei para manterem-se no poder. Até hoje.

Quando digo que a identidade é a realidade de uma pessoa ou população, digo para afirmar a presença da história nas nossas vidas, e como a raça passa a ser um determinante da vida social. Determinante porque o Brasil foi fundado para matar o indígena, escravizar o negro e dar guarida ao branco – e, mesmo que hoje alguns afirmem (sem justificativa) que essa relação é “mais complexa” que isso, resta incontestável que esta é a descrição do nosso processo histórico nacional.

Então, porque não uso o termo identitarismo? Não o uso porque é um termo que mais confunde do que explica. Não o uso porque se tornou uma palavra silenciadora de pessoas negras quando se afirmam negras, de pessoas indígenas quando se afirmam indígenas, de mulheres e pessoas não-binárias quando afirmam seu gênero, quando se afirma sua religião, sua origem nacional ou regional…

Digo que a identidade é a realidade porque a opressão baseada na identidade a torna algo material. Em outras palavras, e mais uma vez voltando a tratar exclusivamente de raça, ninguém é negro ou indígena por opção ou por algo determinado pela biologia: somos negros ou indígenas porque nascemos no meio de uma disputa política. A essa disputa, dá-se o nome de colonialismo.

A pobreza, a doença, as altas taxas de mortalidade, criminalidade, desemprego, encarceramento… são determinadas pela raça. Ao mesmo tempo que certos adjetivos e expressões como “soberbo/a”, “prepotente”, “dono/a da razão”, “insubordinado/a”, “difícil de trabalhar”… também são determinados pela raça. Isso se dá porque a raça é um conceito interrelacional. Diga-se mais uma vez: é o contexto político e social, e só ele, que faz do negro um negro e do indígena um indígena.

O pensamento contrário a esta realidade chama-se essencialismo. Professado por vendedores de pequenos manuais, o essencialista procura no indivíduo (e somente nele) uma explicação de um problema que é coletivo, histórico-material – e por isso, ele não encontra nenhuma resposta válida. No entanto, para muitos desses palestrantes de palavras vazias, não encontrar resposta alguma é precisamente a descrição de sua função nos seus contratos de trabalho com organizações internacionais de “direitos humanos”.

O essencialista nega a realidade da raça, que é uma realidade política, e a apresenta como algo inerente ao ser humano, algo natural, algo apolítico. A raça não é natural; é uma tecnologia de dominação, é uma construção social. É algo alheio ao funcionamento do corpo do indivíduo, que só existe no funcionamento do corpo social.

O essencialista é comumente chamado de identitário, mas a mulher negra trans é quem tem sua voz calada por essa palavra. O indígena trabalhador da cidade é quem tem sua voz calada por essa palavra. A travesti explorada pela prostituição é quem tem sua voz calada por essa palavra. São nossos camaradas, e suas necessidades materiais são necessidades materiais da revolução. Por isso não uso o termo.

E se a direita usa identitário como um artifício que procura “vencer” qualquer debate com alguém não-homem, não-branco, não-cis; alguns setores da esquerda usam identitário como um artifício que busca postergar as necessidades imediatas da classe trabalhadora para um momento pós-revolucionário, como um carro que só poderia baixar o freio de mão depois de chegar a oitenta por hora.

E pensando em Césaire, é preciso e urgente que reconstruamos a realidade. É chegada a hora de começar “a única coisa no mundo que vale a pena começar: o fim do mundo, porra!”.

Aproveitando o ensejo….
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João Coimbra Sousa é advogado criminalista, comunista, mestre em direitos humanos internacionais pela Arizona State University e doutorando em estudos africanos na Universidade Federal da Bahia.

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