Connect with us

América Latina

Como é ser imigrante venezuelano e retornar ao país em meio à pandemia

Em dezembro, uma investigação sobre a história de vida do Centro de Investigaciones Populares (CIP) e do Cecodap foi apresentada à imprensa.

Karla Burgoa

Published

on

hands with latex gloves holding a globe with a face mask

Voltando desinformado, voltando sem recursos, voltando sem apoio e humilhado. É assim que os imigrantes venezuelanos que decidiram fazer uma viagem de volta durante a pandemia retornam ao seu país. Em dezembro, uma investigação sobre a história de vida do Centro de Investigaciones Populares (CIP) e do Cecodap foi apresentada à imprensa.

A mobilização venezuelana continua. Apesar do início da quarentena do COVID-19, em março de 2020, os imigrantes voltaram ao país. “Notamos que há uma mudança na caracterização da mobilidade venezuelana. Antes, eram os homens que saíam primeiro e depois levavam suas famílias com eles. Agora são as mulheres que estão se mobilizando. Mulheres com filhos e avós ”, explica Mirla Pérez, integrante do CIP, professora da Universidade Central da Venezuela e pesquisadora.

Entre as características particulares dessa peregrinação está a forma como essa viagem foi feita. Alexandre Campos, membro do Centro de Pesquisas Populares e pesquisador, explica que os venezuelanos pegaram o pouco que tinham nos países de destino, venderam o que não podiam carregar e iniciaram uma caminhada até a fronteira com a Venezuela. Com o transporte público paralisado pela quarentena, esta foi a forma encontrada pela maioria dos 18 entrevistados pela equipe do CIP.

“Os imigrantes venezuelanos voltam em busca de refúgio. Eles fogem da fome e do desamparo de não ter onde morar; Como não podem trabalhar, não podem pagar o aluguel”, explicou Campos.

Para os pesquisadores, o fato migratório não é apenas mais um dado, não é um fenômeno conjuntural ou setorial. “É definir a nossa vida, um sinal da nossa identidade”, declarou Campos.

Papel das autoridades: ausência ou tratamento cruel

Um ponto comum entre os entrevistados é que autoridades governamentais ou policiais – mesmo não governamentais – estiveram ausentes em sua viagem à Venezuela.

A ajuda real, a mais eficaz, foi a que receberam das pessoas que conheceram nas trilhas. Sem rejeição, sem insulto, bem-vindo.

Quando chegaram à fronteira, viram todas as autoridades. De organizações não governamentais e internacionais; até mesmo a imigração e a polícia. Do lado externo o negócio foi bom, mas do lado venezuelano foi péssimo.

O discurso discriminatório que as autoridades políticas do país elaboram e disseminam contra os repatriados caiu entre os funcionários e os atingiu na chegada. Eles são despojados do que trazem, são humilhados e tratados como criminosos pela polícia e pelos militares.

Os entrevistados pela equipe do CIP relatam que não existem protocolos de biossegurança para entrar no país. De acordo com seus depoimentos, na maioria dos casos aplicaram o teste rápido para detectar COVID-19. Mas independentemente de o resultado ser negativo ou positivo, eles são enviados para um centro de isolamento.

Como são os centros de isolamento?

Esses abrigos, como os repatriados os chamam, ou Pontos de Assistência Social Integral (PASI), como os chama o regime venezuelano, representam para muitos a pior experiência de todo o processo de retorno.

O governo venezuelano garante que são espaços para cumprir a quarentena. “Na prática, eles se tornaram pequenos campos de concentração, nos quais as pessoas são mantidas em condições que não condizem com sua natureza”, dizem os pesquisadores.

Os entrevistados relataram que não havia pessoal médico ou de saúde no local para administrar o local, mas que eram controlados por grupos armados como colectivos (seguidores do governo venezuelano) e milicianos (parte das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas).

Lá, os imigrantes venezuelanos foram ameaçados por esses grupos, eles reduziram a comunicação com seus familiares no país, bem como a possibilidade de obter informações.

Nenhum declarou ter cumprido apenas os 14 dias estabelecidos como critério médico para manter a quarentena. A permanência média de nossos indivíduos nesses centros de isolamento foi de cerca de 25 dias.

E filhos?

As crianças estão indefesas. A fome marca sua mobilização: “Uma pessoa nos disse que do passo de Arauca (Col) a Barquisimeto (Ven) três crianças morreram de desidratação”, disse Pérez.

Não há privilégios para crianças e adolescentes. Eles foram submetidos a caminhadas por quilômetros e dieta pobre; superlotação e cuidados de saúde deficientes. Eles também testemunharam a violência exercida por grupos irregulares contra o resto da população.

A vulnerabilidade e o desamparo vivenciados pelos adultos tornaram-se extremos nas crianças por não terem nenhum tipo de proteção ou privilégio.

“A investigação prevê que cada uma das constatações permita problematizar e exigir uma resposta do Estado para essas famílias”, disse Carlos Trapani, coordenador geral do Cecodap.

Leia a matéria completa aqui

Aproveitando o ensejo….
Aqui na Fonte BR, trabalhamos muito para entregar para vocês informações de qualidade amparadas unicamente na realidade dos fatos. Que tal apoiar o jornalismo independente que fazemos para você?
Clique aqui e seja um assinante. Fortaleça o bom jornalismo.

Jornalista boliviana, periodista potiguar. Formada pela UFRN, já trabalhou com telejornalismo diário e rádio, e atualmente, busca por meio da escrita, contribuir por uma mídia brasileira que enxergue a América Latina além dos esteriótipos

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Escolha a Fonte!

Que tal apoiar o jornalismo independente que fazemos para você? Seja um assinante. Fortaleça o bom jornalismo. 

X