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Brasil

A nova variante de negacionistas

Grupos alinhados ao presidente, inclusive o atual Ministro da Saúde, apontaram o caos em Manaus como fruto da não aplicação do tratamento precoce.

Julio Ponce

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set of syringes with liquid drug arranged on pink background

Nessa semana, com Manaus sofrendo com a falta de oxigênio e a discussão sobre uma nova variante (detectado primeiramente no Japão e depois rastreada até sua origem em Manaus) um novo assunto, que já acreditávamos estar superado, voltou à tona: o “tratamento precoce”.

Por um breve momento achei que a discussão orbitaria em torno do possível escape imune da variante , por conta de mutação crítica na proteína responsável pela entrada na célula, e que é reconhecida pelos anticorpos ditos neutralizantes. Ou pelas implicações da demora na distribuição das vacinas. Ou ainda que, finalmente, convenceríamos os apoiadores do presidente que a inação dele, com a justificativa mentirosa de que o STF o proibiu de trabalhar, foi diretamente responsável pelo caos lá.

Mas não: grupos alinhados ao presidente, inclusive o atual Ministro da Saúde, apontaram o caos em Manaus como fruto da não aplicação do tratamento precoce. Relatos de médicos da região contradizem essa alegação: as pessoas, ainda que tomassem o “kit Covid” tinham quadros agravados necessitando de internação – como seria de se esperar com qualquer um que tomasse um medicamento cuja eficácia frente à Covid é inexistente.

Entram nessa categoria a cloroquina/hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, zinco, azitromicina e qualquer outro medicamento que tenha o desfortúnio de ser abraçado por aqueles que ignoram a medicina baseada em evidências.

Vejam bem: para qualquer um preocupado com a pandemia, seria muito bem-vinda a notícia de um medicamento barato, acessível e, principalmente, eficaz contra o SARS-CoV-2. Fato é que, após um ano de pandemia, nenhuma pesquisa mostrou qualquer princípio ativo farmacológico, dentro dos parâmetros de qualidade, com eficácia comprovada em combater a doença. Ou diminuir hospitalização. Ou reduzir mortes. Ou melhorar sintomas. Ou prevenir infecção.

Destaco aqui um avanço da medicina que merece exceção, por ter conseguido justamente o que todos os outros falharam: as vacinas (que obviamente, resolvem o problema antes da exposição, mas devem ser tomados por todos, inclusive quem alguma vez já se infectou).

A hidroxicloroquina, um medicamento usado comumente para o combate à malária e ao lúpus, foi o primeiro a cair no radar dos que buscavam soluções fáceis para a pandemia, impulsionados por um trabalho, agora infame, do cientista francês Didier Raoult (que posteriormente foi “corrigido” sem grande alarde, encontrando exatamente o oposto do manuscrito original). O trabalho era um apanhado de observações, com quase nenhum rigor científico, mas foi abraçado como fio de esperança na saída da pandemia. No afã de encontrar uma saída para a pandemia, o trabalho causou uma corrida às farmácias, e o estrago estava feito.

Os trabalhos de melhor qualidade não apontaram melhora para nenhum dos desfechos estudados. Risco de eventos cardíacos e pulmonares, em especial com consumo continuado, começaram a surgir em relatos e estudos clínicos com maior rigor.

E aí o negacionismo sofre a primeira mutação: não há prova que funciona, mas também não há prova de que não funciona. Isso é inverter o ônus da prova. Ao propor um tratamento, temos que provar sua superioridade em relação ao placebo, senão não há porque recomendar o uso. É como se eu alegasse que lavar a boca com sabão cura de Covid, e saísse distribuindo barras a quem por ventura me pedisse indicação, sob a alegação de que “não há prova de que não funciona”. Medicina não se faz assim.

Mas essa mutação, ainda disseminada por aí, logo foi substituída por outra: a nitazoxanida, remédio para giardíase que teria demonstrado efeito in vitro contra a replicação do coronavirus. Aqui vale um pequeno parêntese: em um punhado de células há uma lista quase interminável de substâncias que combatem o vírus. Algumas delas não podem ser extrapoladas para uso in vivo, ou seja, em um organismo complexo. Guardadas as devidas proporções da comparação: o que acontece com um bife não pode ser automaticamente usado para determinar como funciona uma vaca.

Pois bem. Com muito alarde, e, de novo, pouco rigor científico, a nova vedete dos que se apegam a relatos rasos foi apresentada em uma cerimônia com presença do Ministro da Ciência e dos pesquisadores que realizaram o estudo (pela bagatela de 11 milhões). De dados? Apenas um gráfico, tirado de um banco de imagens.

Quando o trabalho finalmente foi publicado, a decepção se multiplicou (tal qual a carga viral de quem toma nitazoxanida). Para o grupo placebo, houve redução de 45% na carga viral; para a nitazoxanida, 55%, sem qualquer impacto clínico, redução de hospitalização, sintomas, etc. Cabe aqui lembrar que as medições de carga viral são costumeiramente dadas em notação científica (ou seja, 10 elevado a alguma coisa). Redução de carga viral faz algum sentido quando acontece na escala de 100, 1000, 10000 cópias a menos. Cortar pela metade é algo irrelevante na evolução da doença.

Eis que, então, o discurso sofre nova mutação, agora voltada para a ivermectina. O remédio para sarna chegou a ser distribuído, de forma disseminada e sem muito controle, em algumas cidades do Sul. A taxa de letalidade nessas localidades foi maior.  Não é necessariamente que o medicamento possa ter feito mal (apesar de essa hipótese não poder ser ainda afastada), mas, possivelmente, porque as pessoas que o tomaram tiveram a falsa sensação de segurança de estarem protegido, e descumpriram mais as medidas recomendadas de profilaxia (usar máscara, distanciamento social, estar em local arejado caso seja necessário sair de casa, etc).

Querendo justificar o uso, impulsionados por um tweet do presidente, os promotores da falsa cura alegaram que países da África teriam menores números de Covid por conta da distribuição disseminada de ivermectina (usada no continente para combater Oncocercose). Não é verdade. Ainda que os países que participaram do programa de distribuição tenham números menores, isso se deve possivelmente à experiência com outras pandemias, e população mais jovem (com menor risco de óbito nesses países). Ciência tem que ser, além de rigorosamente realizada, replicável. Que as alegações de sucesso da ivermectina no combate à COVID-19 não tem sido observada nas cidades brasileiras que insistiram nessa estratégia, deveria ser uma gigante bandeira vermelha de alerta.

A mutação seguinte a aparecer é a de sugerir o “atendimento precoce”, como código para o tratamento precoce. É mudar o texto para fugir das críticas, mas no cerne a recomendação inadequada permanece a mesma.

Cabe aqui ainda destacar que por muitas vezes quem faz esse discurso faz também o de impor descrédito nas vacinas (cujos trabalhos demonstrando eficácia foram, em sua maioria, já publicados). Apontam que os 50,38% da CoronaVac (objeto da minha ultima coluna) seriam “apenas 0,38% mais eficaz do que o placebo”. Não compreendem, nesse caso, que o valor apontado é redução de risco, ou seja, não tomar vacina é o risco total de pegar a doença, de forma leve a grave; tomar é reduzí-lo pela metade. Também parecem ignorar que o órgão técnico responsável por sua avaliação viu como suficientes os dados encaminhados para aprovar o uso emergencial.

Os argumentos para manter o uso dessas falsas curas são diversos: “Ah, mas tem médico bom que receita” – sim, porque há pessoas inteligentes que acreditam nas bobagens mais cabeludas. Linus Pauling, que ganhou dois prêmios Nobel, era adepto de tomar vitamina C em quantidades maiores do que o organismo é capaz de absorver. Resultado? O excesso saia na urina, sem qualquer benefício ao organismo. “Ah, mas o Dr. David Uip usou e se curou”. Há relatos que sim, usou. E me parece claro que, sim, se curou. Isso é associação, não causalidade. Sem contar que isso foi em meados de Abril, quando a questão ainda não estava bem definida. 10 meses depois, não parece haver qualquer recomendação para algo que se sabe, com bastante robustez, ser ineficaz. “Ah, mas é melhor não fazer nada? Por que você não sugere uma cura?’ É o que todos que estudam a pandemia querem – um medicamento que cura- que, até o momento, não existe. Medicar sem eficácia é enganar o paciente.

Para todos esses medicamentos também há um site, chamado c19, com um apanhado de estudos sobre o princípio ativo da vez. Ali os estudos tem desenhos mais diversos do que a programação do Cartoon Network. Grande parte em formato pré-print, sem qualquer escrutínio dos pares ou filtro de qualidade. Raramente são comparáveis entre si. E, quando resumidos, reportam resultados secundários (concentração viral, duração de um sintoma entre muitos), sem efetiva melhora, ou redução de óbitos.

É ainda curioso notar que a defesa dos tratamentos, feito de forma efusiva pelo governo federal inclusive através de um aplicativo usado para o diagnóstico de COVID-19, é acompanhado de desconfiança em relação ao lockdown e descumprimento das recomendações de isolamento. Pode-se dizer que esse comportamento é, portanto, perigoso, pois aumenta o risco de espalhamento da doença.

Nessa mesma semana, contudo, uma forma importante de controle das informações inadequadas: tweets do presidente, da Deputada Carla Zambelli (ferrenha defensora do tratamento precoce, que ela mesmo alega ter tomado) e, pasmem!, do Ministério da Saúde foram marcados como contendo informações inadequadas sobre o combate ao coronavírus. É pouco, mas é um começo.

Quando eu estava finalizando o texto dessa semana, imaginei que com a aprovação por unanimidade para uso emergencial no último domingo das duas vacinas com possibilidade de distribuição no Brasil em larga escala, da AstraZeneca/Oxford e da Sinovac/Butantan, aparentemente estaríamos vivenciando um ponto de virada no negacionismo. Cabe ressaltar que na recomendação técnica foi ressaltada a inexistência de terapêuticas alternativas, ou seja, foi confirmado que não há tratamento disponível especificamente para a doença.

Mas, para minha decepção, percebi que não. Pouco tempo depois de ser vacinada, Monica Calazans, mulher, negra, enfermeira da linha de frente no combate à COVID-19 e voluntária nos testes da CoronaVac começou a sofrer ataques com contornos de perseguição pessoal. Afirmaram que a vacinação seria mentirosa, já que ela participou dos teses – apesar de ela ter participado como grupo placebo, e teria garantida sua inoculação ao fim do protocolo com a aprovação da vacina; que a enfermeira teria coberto com as mãos o local de aplicação para esconder que não houve inoculação – apesar de fartos registros de outros ângulos que mostram que houve sim; que a enfermeira não teria seguido protocolos de segurança ao ter aplicado a vacina sem luvas – comportamento usual quando não há contato direto com sangue ou secreções.

Minutos antes de entregar a versão final, leio que o Ministro da Saúde afirmou em coletiva, de forma bastante rude, que nunca havia defendido tratamento precoce. Até segunda-feira, dia 18, o tratamento com hidroxicloroquina constava como uma das recomendações no site oficial do Ministério.

Durante essa pandemia, há dois inimigos que se espalham rapidamente e contra os quais devemos lutar: o vírus e a desinformação. Com a chegada da vacina talvez estejamos próximos de combater ambos.

Aproveitando o ensejo….
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