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Brasil

Não existe cara ou coroa: é 50% de eficácia e 100% de esperança

Notem, portanto, que a vacina protege 78% dos casos de irem ao hospital; 50% dos casos de sequer precisarem de algum tipo de medicação para controlar os sintomas. Vejam, portanto, que a comparação com o cara e coroa, é inadequada.

Julio Ponce

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person holding syringe

Primeiramente, tiremos do caminho a inquietação de todos com relação à vacina do Butantan/Sinovac: a vacina é boa, muito segura e essencial para aplicação durante a pandemia.

Mas vamos aos porquês. O anúncio original causou uma certa comoção na comunidade científica, fato já discutido na minha coluna de ontem. Porcentagens sem os dados brutos, apesar de muito promissoras, não puderam ser corretamente avaliadas pelos cientistas e pesquisadores, ávidos pela confirmação da eficácia divulgada de 78% para casos leves.

Com a divulgação dos dados brutos (e a possibilidade de calcular a significância estatística, da qual falo mais ao longo do texto), vimos que a ansiedade era justificada, mas que as notícias, agora confirmadas, ainda são bastante positivas.

A eficácia informada na coletiva de hoje, em uma análise superficial, parecia muito mais baixa: “apenas” 50,4%, ante os 78% divulgados na semana passada. Críticos anti-vacina compararam a eficácia global a um jogo de cara ou coroa. Outros ainda, levantaram a informação da ausência de avaliação de eficácia nos assintomáticos.

Screenshot da apresentação do dia 12 de janeiro, da eficácia global da CoronaVac (YouTube)
*as definições de tipo de caso são: muito leve – sintomático sem necessidade de atendimento; leve – sintomático com necessidade de atendimento; moderado – hospitalização com ou sem oxigenoterapia; grave- hospitalização com oxigenação de alto fluxo ou intubação.

Cabe aqui ressaltar o potencial impacto da vacina, e uma pequena discussão sobre o p-valor apontado ali. O p-valor é uma medida de significância em testes estatísticos que pode ser traduzida, de forma aproximada, como a probabilidade de que, se eu não tivesse nenhuma diferença entre usar a vacina e o placebo (ou seja, se a vacina fosse 100% ineficaz), obtivesse esse resultado por mero acaso.

Em estatística gostamos de p-valores abaixo de 0,05, ou seja, que em apenas 5% das vezes que eu repetir esse teste e não houver diferença entre a intervenção e o placebo, eu tenha o resultado observado.
Observamos ali que a redução de casos graves e moderados(que requerem hospitalização, incluindo em alguns casos UTI), alardeada na semana passada como sendo de 100% tem um p-valor de 0,4957.

Ou seja, há uma probabilidade de 49,6%, aproximadamente, de eu ter os resultados apresentados na coletiva (0 casos graves/moderados no grupo vacinado, 7 para o grupo placebo) se eu pegar dois grupos aleatórios do mesmo tamanho do estudo e aplicar nos dois uma solução de água com sal e açúcar.

Mas isso só acontece porque temos um número baixo de casos, o que chamamos de evento raro nessa situação. Avaliações com um número maior de pacientes, ou com grupos específicos, pode sanar esse problema. Ainda assim, o cerne das notícias a serem comemoradas está nos próximos resultados.
Para os casos leves, mas que ainda precisam de atenção médica (sem internação), já temos um p-valor menor, de 0,0029. É muito improvável, portanto, ter esse resultado sem que a vacina tenha efeito diferente do placebo.

Nessa situação, foram 7 casos para o grupo da vacina, contra 31 para o grupo placebo (incluindo, salvo engano, aqueles casos graves estudados na comparação dos hospitalizados). Ou seja: A vacina protege, e muito bem, o surgimento de casos que precisam de algum atendimento médico, como já havia sido esclarecido na semana passada.

Para casos leves, com poucos sintomas e sem necessidade de auxílio médico, a eficácia ficou nos 50,4% divulgados hoje, com p-valor de 0,0049. Dessa forma, há 50% menor risco de pegar a doença, ainda que de forma leve, com a aplicação dessa vacina.

Para assintomáticos, tal qual foi feito para a avaliação da vacina da Pfizer, a comparação não foi feita, tendo em vista o alto custo em avaliar a grande população testada (cerca de 13 mil voluntários). Apenas sintomáticos foram incluídos como potenciais casos de Covid-19 e tiveram seu material biológico testado para a presença do material genético do vírus.

Notem, portanto, que a vacina protege 78% dos casos de irem ao hospital; 50% dos casos de sequer precisarem de algum tipo de medicação para controlar os sintomas. Vejam, portanto, que a comparação com o cara e coroa, é inadequada.

Não atribuímos valor binário à COVID-19, que pode ser leve, moderada, ou em casos mais graves, requerer internação por longos períodos na UTI. Que a vacina seja capaz de impedir hospitalização, desocupar leitos de UTI, diminuir formas mais graves e salvar vidas – apesar de não ter havido óbito algum em quaisquer dos dois grupos, é razoável inferir que a proteção contra casos leves e graves acaba por ser proteção contra a morte, em última instância- é um excelente resultado.

É ainda interessante entender que, com uma eficácia global, isto é, capacidade de frear a infecção, um pouco mais reduzida, é essencial que tenhamos uma campanha abrangente, clara e que garanta que a maior parcela possível da população seja vacinada.

Se focarmos apenas nessa cifra de 50%, e supusermos que 50% dos casos de contaminação são assintomáticos a conta é fácil: vacinar 100 mil é proteger de quaisquer sintomas 75 mil pessoas (50 mil que já não desenvolveriam sintomas, e metade daqueles que poderiam desenvolvê-los); é proteger de atendimento médico 89 mil pessoas (aquela metade assintomática e 78% dos que desenvolveriam sintomas); é potencialmente proteger (a ser confirmada com significância estatística maior) 100 mil pessoas de serem internadas e irem parar na UTI. Se dobramos o número, dobramos também o número de protegidos. Isso se traduz, de forma mais basilar possível, em salvar vidas.

As contas aqui foram simplificadas para entendimento. Na realidade, a eficácia da vacina é a capacidade de reduzir incidência no grupo vacinal em comparação com o grupo placebo. Efetivamente quer dizer que, se fossemos ter 3000 casos leves a graves em uma população de um milhão, sem a vacina, reduziremos esse número para 660 – um impacto muito considerável no sistema de saúde

Mesmo com 50% de eficácia global, há agora 100% de esperança de que há uma luz no fim do túnel que é essa pandemia.

Aproveitando o ensejo….
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bacharel em Ciências Moleculares e Farmácia Bioquímica, mestre em Fisiopatologia Experimental e Doutor em Epidemiologia, todos pela USP.

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